Quando um sonoro “eu te amo” vem em nossa direção, pronunciado por alguém especial, não há como fugir. Acaba a briga, acaba o tédio, começa o amor. Imagine então se a frase vier acompanhada de uma canção clássica, daquelas que é impossível não cantarolar junto? Uma situação tão perfeita que parece saída de um filme. E saiu.
E mais: saiu de um filme onde o amor é imperfeito.
Nos início dos anos 90, Woody Allen havia presenteado seus fãs com produções como Poderosa Afrodite e Tiros na Broadway, bem ao gosto do paranóico diretor. Mas em 1995, Allen mostra mais uma vez seu poder de surpreender o público e lança um musical. A ideia inicial de Todos dizem eu te amo não nasceu com a intenção de ser um integrante do gênero mais empolgante de Hollywood. Allen afirmou em várias entrevistas que não fez um musical, mas um filme onde as pessoas cantam o que estão sentindo.
Tanto isso é verdade que o diretor não se importou de chamar para integrar o elenco atores com dotes vocais. Fez mais ainda: pediu que Goldie Hawn, que já soltou seu vozeirão nas telas várias vezes, para dar uma piorada em seu canto, já que seu intuito era mostrar pessoas comuns exercitando o dó-ré-mi em nome do amor.
Ah, o amor! O filme de Woody Allen não fala de outra coisa a não ser a maluca montanha-russa que é a vida amorosa dos mortais. Narrado pela jovem DJ, uma espirituosa adolescente de Nova York, Todos dizem eu te amo nos apresenta uma série de personagens excêntricos, no melhor estilo alleniano. Permeando os encontros e desencontros românticos dos personagens estão piadas certeiras, como a rixa entre o pai democrata e o filho republicano e a homenagem aos irmãos Marx durante a festa de Natal.
Mais um detalhe que faz Todos dizem eu te amo ser único são as canções. Ao invés de seguir a tradição e chamar renomados compositores para compor as músicas, Allen preferiu selecionar o que houve de melhor no cancioneiro americano nas décadas de 20, 30 3 40, incluindo uma versão juvenil de Chiquita Bacana. A intenção de Allen foi vitoriosa, já que é impossível não se encantar com os números musicais do filme, no melhor estilo de “já pensou se fosse assim?”. Afinal, quem aqui nunca pensou em usar uma canção para descrever um momento? Ou simplesmente cantarolar de felicidade no meio da rua?
Ah, o amor. Woody Allen fala dele como poucos. E acerta na mosca ao mostrar que mesmo que a vida fosse um musical, nem sempre o príncipe encantado seria feliz para sempre. Todos dizem eu te amo, mas não todos os dias.
Todos dizem eu te amo (Everyone says I Love you)
Ano: 1995
Direção: Woody Allen
Disponível em DVD
A adolescência é sem dúvida uma das fases da vida mais exploradas pelo cinema. Também pudera, já que é a época das descobertas, das aventuras e dos ritos de passagem que vão marcar nossa vida para sempre.
Para o bem e para o mal. Seja no musical Grease- Nos tempos da Brilhantina, no clássico comovente A última sessão de cinema ou no recente Antes que o mundo acabe, da gaúcha Ana Luiza Azevedo, a adolescência ganha as telas e acaba fazendo parte da nossa vida, já que é difícil lembrar dessa fase sem lembrar dos filmes que nos marcaram. E um diretor que marcou a adolescência de muita gente também deixou sua marca de juventude em vinte e quatro quadros por segundo.
George Lucas era um recém-formado em cinema e o seu clássico Star Wars ainda era um embrião em 1973, ano em que ele nos presenteou com American Graffiti, o pai de todos os filmes que tratam da despedida do colegial. A trama, ambientada em 1962, narra a última noite de dois amigos, Curt e Steve, numa pequena cidade do interior dos Estados Unidos.
A escola é coisa do passado e na manhã seguinte um avião os espera para ganharam o rumo da tão sonhada faculdade. O clima quente do verão, os carrões pilotados por jovens em busca de diversão madrugada adentro e o rockabilly que ecoava nos auto-falantes dão o clima do filme. Mesmo com dois protagonistas, as aventuras vividas por Curt e Steve são apenas detalhes dentro da trama, que tem pequenas histórias dos coadjuvantes muito bem elaboradas, como se fossem curtas-metragem.
A edição de som, um dos grandes trunfos do filme, foi premiada e até hoje é citada em cursos de cinema como um belo exemplo de unir som e imagem. E por falar em prêmios, American Graffiti teve cinco indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Diretor, além de levar o famoso Leopardo de Bronze no Festival de Locarno, na Itália.
American Graffiti tem produção do amigo e colega de faculdade de Lucas, Francis Ford Coppola, na época um iniciante. Mas não é só na técnica que os nomes são conhecidos. Um imberbe Richard Dreyfuss e um sardento Ron Howard (diretor de Uma Mente Brilhante) interpretam os protagonistas de um elenco que conta com o apoio de Dustin Hoffmann e Harrison Ford na pele de um bonitão chegado em pisar no acelerador. Na época do lançamento do filme, eles não passavam de jovens em busca de um lugar ao sol em Hollywood. Quem diria que na sequência “só” Guerra nas Estrelas e Indiana Jones entrariam para o currículo dessa gurizada.
A trilha sonora de American Graffiti merecia uma análise exclusiva. São tantos clássicos que há momentos em que a gente não sabe se assiste aos filme ou levanta da cadeira e sai dançando. The Beach Boys, Chuck Berry e The Platters são apenas alguns dos nomes que dão ritmo às cenas engraçadas, românticas e eletrizantes que permeiam o filme. A começar pelos créditos de abertura, ao som de Rock around the clock, de Bill Haley. É pra começar a exibição com o pé direito batendo no chão, seguindo o compasso. Isso sem contar o personagem Wolfman, um radialista que influencia a cidade inteira tocando rock’n’roll e mandando recadinhos nada inocentes.
No Brasil, o filme ganhou o dispensável subtítulo de Loucuras de Verão, talvez visando a exibição em alguma Sessão da Tarde da vida. Mas ao invés de tornar-se mais um filme juvenil na prateleira da locadora, American Graffiti marcou uma época e criou a cartilha seguida até hoje por diretores que querem cativar o público adolescente. Mas só há um American Graffiti, que constrói sem lições de moral baratas uma história sobre a perda da inocência que, uma hora ou outra, bate a nossa porta.
Dica da Bia: O diretor George Lucas lançou, em 1979, More American Graffiti – E a festa acabou, uma sequência que mostra a entrada na vida adulta dos personagens. Não é um grande filme, mas vale como diversão e para atiçar nossa imaginação para saber o que houve após o “The End”.
Dica da Bia parte II- A missão: Preste atenção na placa do carro de John Milder, THX 1138. Este é o título do filme anterior de George Lucas, uma das melhores ficções-científicas de todos os tempos.
American Graffiti – Loucuras de Verão (American Graffiti)
Ano: 1973
Direção: George Lucas
Disponível em DVD